Eu, finalmente, estava livre. Era tudo o que eu quis durante anos. Mas agora que não posso mais tê-la, eu a desejo.
Caminhamos por tempos e tempos juntos. Na maior parte, eu desejava que minha liberdade fosse alcançada mais rápido. “Ela é só um amor de verão”, dizia eu a mim mesmo. Disso eu tinha certeza. Mas ela parecia não ter tanta. Não entendia que eu sempre precisei ser livre, independente. Ela quis por vezes me domar. Me deixar no ninho, me mimar com seus beijos e carinhos. Nas noites solitárias, um cafuné e um chá feito por ela iam bem, não me entendam mal. Mas eu não via grande propósito em tudo aquilo. Me divertia, ela também. E eu achava que nós dois queríamos a mesma coisa. Só uma distração, um amor passageiro. Manhãs preenchidas por sol e praia. Eu a ensinava a surfar, ela sentava-se comigo nos quiosques, observando o dia. Tardes que me lembram o cheiro de chá. Esse era um quase vício que ela fazia questão de levar consigo. Britânica, veja só. O chá se tornava indispensável naquelas tardes ensolaradas. De noite, como em todo verão que se garanta, aquela típica fogueira na praia, banhada pela luz da lua. Tudo tinha um gosto tão novo, aquela leveza trazida por coisas naturais. Mas ela devia me conhecer. Eu realmente não estava em busca de qualquer amor duradouro. Só queria ocupar meus dias praianos sem ter que me aborrecer com nada. Assim o verão passou. E ela insistia em permanecer. Insistia em buscar aquela magia perdida com o final dos dias de glória na praia. E, depois de uma daquelas discussões acaloradas, em que eu clamava por liberdade, ela partiu. Levou seu velho carro amarelo e seu cheiro iminente de chá consigo. Levou o verão, levou o sol, levou o vento e a maresia. Depois de ver ela saindo frustrada pela porta da frente da pequena casa em que eu vivia, me sentei ao sofá, fingindo não me importar, com uma taça de vinho na mão. Jurei a mim mesmo nunca mais tomar chá. Nunca mais fazer o que costumávamos fazer.
A verdade é que nessas tardes ensolaradas ela faz falta. Ora, quem eu quero enganar, ela faz falta o tempo inteiro. Eu, que achei um romance para toda a vida, e o deixei passar. A magoei, devo admitir. A vi ir embora, e nada fiz. Porque, naquele tempo, as minhas pretensões eram totalmente levianas. Mas hoje elas se tornaram diferentes. Completamente, devo dizer. Hoje eu a quero. Não por um verão, não para passear na praia, não para uma simples distração. Eu a quero para sempre. Mas nunca vou tê-la. Eu, que só buscava um amor de verão, me vi preso naquele mesmo tempo. Eu, que insistia para conseguir liberdade, hoje não consigo mais sobreviver na solidão que restou sem ela. Eu, que não me apaixonava, hoje não tenho coragem de surfar mais. Não, não depois que não vejo seu carro amarelo parado na orla. Não, não depois que eu fui tolo o bastante, para achar que a mulher da minha vida, era algo passageiro, sem volta. - Isadora Graça (simplesacasos)
#MEUXX #simplesacasos #mas q porcaria #q issu tá #enfim
Passaram-se dois anos, e não havia um dia sequer em que ele não pensasse nela. Meses atrás, como por um impulso digno de filmes, ele discou seu número sem querer e uma voz masculina com um sotaque forte atendeu.
Um sotaque, pois, bem parecido com o dela.
Provavelmente Cassie se casara com um jovem simpático e bronzeado de sua cidade. Ela sempre amara praia e sol, e nunca tivera coragem de se afastar daquela pequena cidade. Sua mãe e seu padrasto a criaram em uma casa rústica, branca, que quase se misturava com a areia da praia.
Cassie amava sentar-se a beira da grande varanda que dominava a frente da casa. Era bem espaçosa, mas nada luxuosa. Bem sua cara. Ela permanecia ali por horas, segurando uma xícara de chá fumegante na mão, e um olhar sonhador, enquanto observava o nascer do sol.
Quantas vezes eu me deparava com aquela cena ao virar a esquina da rua de sua casa de carro, antes de ir para o trabalho, passando ali só para vê-la. Nunca a encontrara dormindo. Ela tinha essa irritante - e admirável - mania de acordar antes do sol.
(Dias atrás havia me pegado em outra fraqueza, passando por ali novamente, depois de tempos. Sem coragem nem para abaixar o vidro do carro, o que dirá fazer o que eu tanto queria: entrar e conquistá-la novamente).
Eu me sentava ao seu lado, e ficava ali, olhando para quem eu julgava ser a mulher da minha vida. E provavelmente ela foi.
Hoje era outro homem que o fazia. Que a observava dormir, que lhe dava carinho, lhe preparava seu chá de tarde, enquanto ela assistia aquele seu filme preferido, pela milésima vez. Era nele agora que ela escondia a cabeça, naquela mesma parte que ela não suportava assistir. Ele que queria roubá-la para si, porque, assim, ninguém mais poderia olhar para ela, do jeito que ele o fazia.
Ou pelo menos foi o que pensei, quando ouvi aquela voz ao telefone. Telefone que, claro, tratei de desligar de imediato.
Para nunca mais ter que imaginar nada daquilo.
- Isadora G (simplesacasos)
#aula de ciência pra que né? #ngm vai ler isso #mas ok #simplesacasos #MEUXX
“E agora? O que supostamente eu deveria fazer?”
“Viver. Viver seria uma boa opção”.
- Isadora G (via simplesacasos)
#simplesacasos #MEUXX
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O sol desaparecia outra vez por trás das colinas e da densa neblina. Ele sentiu um calafrio na espinha. Nunca gostara de pôr-do-sol. Algo ali morria, e se perdia, sem ser recuperado no dia seguinte. Uma magia que nunca voltaria a aparecer. Um pouco da essência daquela beleza se ia a cada dia. Assim como ela. Que a cada dia aparecia mais distante, mais fora de alcance. Como algo que nunca mais seria completo. Se perderia, deixando para ele só sua companheira, a querida saudade.
Isadora Graça (via simplesacasos)
#MEUXX #simplesacasos
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Sua mente lastimava tão alto, que ela não podia mais ouvir seus próprios pensamentos.
Isadora Graça (via simplesacasos)
#MEUXX #simplesacasos
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Quer dizer, eu sei que você ainda sofre por ele. Mas isso aos poucos passa, e um dia você acorda sem um grande peso nas costas. E, depois de um tempo, você não se arrepende de nada. Vê que tudo aquilo serviu para alguma coisa. Serviu de verdade. Te fez crescer.
Isadora Graça (via simplesacasos)
#simplesacasos #MEUXX
Sentou-se naquela mesa bamba do café antigo (e melhor) da cidade. Olhava ao seu redor o tempo todo. Esse costumava ser o lugar preferido deles. Esperou por algum tempo, enquanto tentava escrever algo. Mas eram só palavras desconexas que se transferiam para o papel. Ela nunca mais havia conseguido escrever depois que ele partira. Seu olhar percorreu todo o café, e depois se dirigiu para o jardim que ficava de frente das paredes de vidro da fachada do lugar. Era o ponto principal daquela pequena cidade. Ela via vários casais apaixonados andando por ali. Dividindo cafés, trocando carinhos. Era o que ela mesma fazia em outros tempos. Mas isso era passado. Como tudo que o envolvia. Um passado que não saia de sua cabeça. Ela lembrava exatamente da noite em que ele havia partido. Tinha deixado um bilhete na porta da geladeira, um café ainda quente em cima da mesa, e uma flor do jarro da sala. Só isso havia sobrado de toda aquela paixão. E assim era a carta:
“A última coisa que eu gostaria de fazer, estou fazendo agora. Não se preocupe, não há nada de errado. Sou eu mesmo. ‘Sou como um sopro’, foi isso que você disse naquela manhã de domingo. Eu não pude ser o que queria para ti, pequena. Nem cheguei perto. É por isso tenho que partir. Porque a vida nos colocou em estradas diferentes, é verdade. Me desculpe por tudo, e peço que não se esqueça do que eu senti por você. Em nenhum momento foi uma mentira. Só não foi completo o suficiente. E essa foi a melhor maneira que eu consegui achar para te contar isso. A maneira que talvez menos lhe doa. Siga em frente, conheça novas pessoas. Lhe de esse direito. Um dia nossas vidas talvez se cruzem mais uma vez. Talvez dessa vez dê certo. Ou talvez o único caminho acessível e certo seja o esquecimento. Isso provavelmente tenhamos que deixar nas mãos do destino.
Com amor,
Aquele que nunca quis te magoar”.
Seus olhos se encheram de lágrimas ao se lembrar daquilo. Deixou a mesa do café, e se sentou no meio-fio da rua, em pleno inverno. Agora ela percebia a perda de tempo que tudo aquilo havia sido. Que ele havia sido. Ela abaixou a cabeça e pensou: “Não restou nada”. E por parte estava certa. Mas, afinal, ainda haviam caminhos a percorrer, destinos para seguir. Não podia se prender a uma rosa murcha, e a um café que há muito havia esfriado. Esfriado, como seus sentimentos por ele. Talvez a história deles tenha sido nada mais do que isso: palavras desconexas, tentando formar alguma coisa, ser alguma coisa, na borda de um papel.
Suspirou novamente. Sim, agora estava pronta para seguir em frente.
- Isadora Graça (simplesacasos)
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